Diário de um missionário
Montes Claros, 1 de Agosto de 2005
Inauguração do Aquarela
Uma vez mais me deparo com a dificuldade de exprimir com palavras o que sinto neste momento. O cansaço acumulado impede-me de raciocinar, e a preguiça vence-me quando se trata de analisar sentimentos ou o que estou a viver. Hesitei antes de pegar no computador, mas depois pensei que se não fosse agora, não iria conseguir transmitir de maneira tão real o que hoje sinto.
O Aquarela finalmente começou. Ainda que tenhamos passado o mês de Julho na formação dos funcionários, as crianças que hoje apareceram é que formam o projecto. O que senti no dia de hoje? Como o vivi?
Desde as 7h que não páro, e sendo agora quase 23h, pode-se dizer que o dia foi no mínimo intenso. Como comentava há bocado com a Zézinha, ambas estranhamos o facto de não estarmos nas nuvens, completamente em extase com o concretizar deste projecto. Foram 6 meses e meio a trabalhar para uma causa que hoje se tornou realidade, e nós nem vontade temos de celebrar. Em parte por termos mil coisas relacionadas com o Aquarela em mente: preencher as 7 vagas que ainda temos, fazer uma lista de espera, tentar desesperadamente convencer os pais das crianças que não apareceram de que o Aquarela é de facto uma coisa boa, na qual vale a pena apostar e inscrever os seus filhos, ajustar horários, acabar o que ficou por fazer (listas de presenças, organizar turmas, matricular crianças...). Enfim, um rol de coisas que não acaba mais. Por outro lado, é tudo tão intenso, e passa tudo tão rápido, que não dá para parar e saborear. Um bocadinho como se fossemos nós a dar uma festa, e não conseguissemos nunca relaxar para saborear. Por não haver tempo, e termos de estar em todo o lado ao mesmo tempo.
A tudo isto acrescidas mil emoções das mais variadas possível.
O que dizer a um Luís Carlos de 9 anos, que vê muitos dos seus amigos a participarem no Aquarela, quando ele não foi escolhido (por razões que a nós, na altura da selecção nos pareceram óbvias), e o encontramos por duas vezes à porta do Aquarela a chorar? Dizia-me hoje a minha mãe que eu tenho uma outra idade, menos sensível, e que não me comovo tanto... Que se fosse ela, não teria hesitado um segundo. Eu daria tudo para inscrevê-lo. Partiu-me o coração vê-lo a ir-se embora, a enxugar-lhe as lágrimas, e tentar explicar que não dava para todos. Este é dos momentos deste meu ano em que confio mais em Deus, e coloco nas suas mãos a tarefa de nos ajudar. Acreditar que não há acasos, e que se calhar a vaga do Luís Carlos foi para a Yara, cuja mãe morreu há dois dias, e a ela lhe resta apenas como família um pai mais velho, e uma irmã deficiente, enquanto que ele ainda tem um acompanhamento familiar mais equilibrado... E o peso... Quem somos nós para decidir assim a vida e futuro destas crianças?
Aparecermos no Aquarela a seguir ao almoço e vermos a Jessica de 12 anos a quem tinhamos dito para aparecer hoje, na esperança de lhe arranjarmos uma vaga, a ir-se embora a chorar, e termos a alegria de lhe gritar para voltar.
Chegar lá e encontrar o Kiko que me dá um abraço apertado encheu-me para o resto do ano. O Kiko que era a minha aposta e perdição. Uma das excepções que confirma a regra, por estar num ano mais avançado. O Kiko cujos pais nem devem perceber onde ele anda, cujas irmãs de 15 e 18 anos acabam de ter o primeiro e segundo filho, respectivamente.
O Alan de 7 anos que NUNCA em 6 meses nos ligou alguma, e que de repente nas últimas semanas nos enche de abraços e miminhos. O Alan a quem eu chamo de 'Meu amor!' e que já se despede de mim com um 'Tchau meu amorzinho!'.
Miúdos que nos testam até à última, vendo até onde é que aguentamos, tentando descobrir os limites, e quando percebem que apesar de muita asneira, violência, indiferença e provocação não os vamos largar, nem desistir deles, rendem-se. São gritos silenciosos que clamam por mimos, atenções, alguém que lhes dê amor.
Uma admiração e reconhecimento por um Toninho que veste 100% a camisola, que nunca faz má cara, chega mais cedo quando é preciso, sai mais tarde, além de porteiro, é educador, brinca com os miúdos quando já ninguém se consegue mexer, está sempre bem disposto.
O Jorge que discretamente nos tem ajudado cá em casa, tentando amenizar ao máximo o nosso cansaço e ajudar-nos no nosso trabalho. E ao mesmo tempo, encomendas que nos chegam de Lisboa, das nossas famílias, com cerelac, chocolates, livros de receitas e petiscos!
Inauguração do Aquarela
Uma vez mais me deparo com a dificuldade de exprimir com palavras o que sinto neste momento. O cansaço acumulado impede-me de raciocinar, e a preguiça vence-me quando se trata de analisar sentimentos ou o que estou a viver. Hesitei antes de pegar no computador, mas depois pensei que se não fosse agora, não iria conseguir transmitir de maneira tão real o que hoje sinto.
O Aquarela finalmente começou. Ainda que tenhamos passado o mês de Julho na formação dos funcionários, as crianças que hoje apareceram é que formam o projecto. O que senti no dia de hoje? Como o vivi?
Desde as 7h que não páro, e sendo agora quase 23h, pode-se dizer que o dia foi no mínimo intenso. Como comentava há bocado com a Zézinha, ambas estranhamos o facto de não estarmos nas nuvens, completamente em extase com o concretizar deste projecto. Foram 6 meses e meio a trabalhar para uma causa que hoje se tornou realidade, e nós nem vontade temos de celebrar. Em parte por termos mil coisas relacionadas com o Aquarela em mente: preencher as 7 vagas que ainda temos, fazer uma lista de espera, tentar desesperadamente convencer os pais das crianças que não apareceram de que o Aquarela é de facto uma coisa boa, na qual vale a pena apostar e inscrever os seus filhos, ajustar horários, acabar o que ficou por fazer (listas de presenças, organizar turmas, matricular crianças...). Enfim, um rol de coisas que não acaba mais. Por outro lado, é tudo tão intenso, e passa tudo tão rápido, que não dá para parar e saborear. Um bocadinho como se fossemos nós a dar uma festa, e não conseguissemos nunca relaxar para saborear. Por não haver tempo, e termos de estar em todo o lado ao mesmo tempo.
A tudo isto acrescidas mil emoções das mais variadas possível.
O que dizer a um Luís Carlos de 9 anos, que vê muitos dos seus amigos a participarem no Aquarela, quando ele não foi escolhido (por razões que a nós, na altura da selecção nos pareceram óbvias), e o encontramos por duas vezes à porta do Aquarela a chorar? Dizia-me hoje a minha mãe que eu tenho uma outra idade, menos sensível, e que não me comovo tanto... Que se fosse ela, não teria hesitado um segundo. Eu daria tudo para inscrevê-lo. Partiu-me o coração vê-lo a ir-se embora, a enxugar-lhe as lágrimas, e tentar explicar que não dava para todos. Este é dos momentos deste meu ano em que confio mais em Deus, e coloco nas suas mãos a tarefa de nos ajudar. Acreditar que não há acasos, e que se calhar a vaga do Luís Carlos foi para a Yara, cuja mãe morreu há dois dias, e a ela lhe resta apenas como família um pai mais velho, e uma irmã deficiente, enquanto que ele ainda tem um acompanhamento familiar mais equilibrado... E o peso... Quem somos nós para decidir assim a vida e futuro destas crianças?
Aparecermos no Aquarela a seguir ao almoço e vermos a Jessica de 12 anos a quem tinhamos dito para aparecer hoje, na esperança de lhe arranjarmos uma vaga, a ir-se embora a chorar, e termos a alegria de lhe gritar para voltar.
Chegar lá e encontrar o Kiko que me dá um abraço apertado encheu-me para o resto do ano. O Kiko que era a minha aposta e perdição. Uma das excepções que confirma a regra, por estar num ano mais avançado. O Kiko cujos pais nem devem perceber onde ele anda, cujas irmãs de 15 e 18 anos acabam de ter o primeiro e segundo filho, respectivamente.
O Alan de 7 anos que NUNCA em 6 meses nos ligou alguma, e que de repente nas últimas semanas nos enche de abraços e miminhos. O Alan a quem eu chamo de 'Meu amor!' e que já se despede de mim com um 'Tchau meu amorzinho!'.
Miúdos que nos testam até à última, vendo até onde é que aguentamos, tentando descobrir os limites, e quando percebem que apesar de muita asneira, violência, indiferença e provocação não os vamos largar, nem desistir deles, rendem-se. São gritos silenciosos que clamam por mimos, atenções, alguém que lhes dê amor.
Uma admiração e reconhecimento por um Toninho que veste 100% a camisola, que nunca faz má cara, chega mais cedo quando é preciso, sai mais tarde, além de porteiro, é educador, brinca com os miúdos quando já ninguém se consegue mexer, está sempre bem disposto.
O Jorge que discretamente nos tem ajudado cá em casa, tentando amenizar ao máximo o nosso cansaço e ajudar-nos no nosso trabalho. E ao mesmo tempo, encomendas que nos chegam de Lisboa, das nossas famílias, com cerelac, chocolates, livros de receitas e petiscos!
Montes Claros, 7 de Agosto de 2005
O Aquarela já começou mesmo. Não foi só o primeiro dia, mas uma semana inteira.
Um espaço que ganhou vida: as paredes que já têm marcas de pés, os copos às cores com escovas de dentes com nomes escritos, os gritos das crianças que se ouvem do princípio da rua. O catar piolhos (já começou! E também as minhas comichões...), os rapazes a espreitar para dentro das casas de banho das raparigas, e os autoclismos por puxar! Tudo a querer ir beber água quando é hora de fazer os trabalhos de casa, os 80 com T-Shirts do Aquarela, e as mães que se esquecem de ir buscar os filhos...
O mais gratificante, de longe, tem sido ver a euforia e emoção dos miúdos a cada dia que passa. Miúdos que vamos conhecendo a fundo, que nos vão testando, e conquistando. Crianças que lutam como homens. Diariamente. São conversas atrás de conversas a tentar 'fazer as pazes', passar disciplina e uma certa paz. A esse nível tem sido desgastante porque temos de estar sempre de olho aberto, a 100%, sem saber que métodos usar para os travar e impedir tanta violência. Porque são miúdos a quem foi sempre tudo rejeitado, negado; que diariamente vivem cenas de violência em casa, mas que têm de aprender a qualquer custo que essa não é a solução.
E a recompensa vem logo logo, quando os miúdos a quem na véspera descompusemos por causa de brigas aparecem em nossa casa às 7h15 a pedir para irmos mais cedo para o Aquarela. Também os banhos têm sido um delírio para os miúdos (no primeiro dia acabou a água! E o problema não foi só da caixa de água!). A água é quente, coisa que a grande maioria não tem em casa (se muitos deles têm água fria, para não gastar electricidade, muitos outros não têm sequer casas de banho em casa), e é uma luta para ver quem é o último a tomar banho para poder ficar debaixo do duche a gozar o prato. As refeições têm sido outro ponto forte. Eles repetem, repetem, repetem até não aguentarem mais. Nas actividades, dadas por voluntários, nem dá bem para descrever o que são 40 miúdos a fazerem exercícios de teatro ou de ginástica. É delirante. Para eles. Para nós.
O outro lado da moeda são as listas de espera que já começámos a fazer. O peso de termos que arranjar mais vagas não sabemos bem onde, nem como, porque há famílias que precisam e ficaram de fora. O coração aperta-se-nos, e vêm-nos literalmente lágrimas aos olhos quando visitamos uma família que não podemos deixar de fora, ou quando um Luís Carlos fica à porta a chorar porque também quer participar.
Ao mesmo tempo, o tempo vai passando e planos futuros vão-se desenhando. O preencher esta lacuna junto daqueles outros que tanto precisam graças à Filipa, Mariana, Zé e Eduarda (mais MSV em Montes Claros!) que estão cá para isso, entre tantas outras coisas! Aquelas visitas em que só estar significa tanto. A presença dos portugueses que é tão esperada todos os anos torna-se de novo uma realidade. Quanto a nós, o agarrarmos mesmo estes 80 miúdos, e acreditarmos que o Aquarela pode ser um marco nas suas vidas, ainda que corramos o risco que muito pouco ou nada vá mudar. Muda o saberem que alguém está cá para eles, para o que der e vier, sem desistências.

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